domingo, maio 16, 2010

Canção da Vida (1994)


Desde o parto
os filhos partem
e, ao partir,
nos partem.

Partem em partes
o coração que,
partido,
assiste à partida.

Desde o parto
partes de nós
partem
para viver à parte

E partidos permanecemos
a partilhar com eles
a alegria de partir
e encontrar suas partes.

O Homem e o Mar



(um ensaio sob inspiração de João Cabral de Mello Neto - 1995)

O que o homem aprende do mar:
o derramar e alastrar do líquido espumoso
que preenche os epaços e enche de prazer
[seus domínios momentâneos;
o mistério da expressão de seus versos
[não cantados;
a paixão agressiva e possesiva que encanta
e domina ao fazer-se atraente e incontrolavelmente desejado.

O que o homem não aprende do mar:
o sorrir e alegrar-se por pequenos momentos;
o tocar diferente a uns e a outros;
o mostrar-se confiável num simples movimento;
o abraçar e envolver corpos humanos
provocando-lhes calor intenso.

O que o mar não ensina ao homem:
o surprender a cada dia,
o ser suave a despeito de sua violência natural,
o dominar sem fazer com que o outro se sinta dominado.

sábado, maio 15, 2010

Busco um homem




Sabe, eu estive pensando... não é interessante viver sem homem... não desejo ir aos quatro cantos do mundo para alardear essa minha conclusão, mas sei que posso confiar em você - minha amiga - mulher, que sabe de que eu estou falando.

Hoje acordei cedo e fui ao supermercado para fazer compras. Paguei com o meu dinheiro (dinheiro do meu trabalho, quero dizer) - comprei tudo o que precisava para a casa. Voltei, comi um sanduíche rapidinho e fui fazer umas costuras atrasadas - deu errado, não acertei por cinco vezes e acabei deixando o que seria uma bela almofada, como paninho na lata de material reciclado - a minha filha diz que quem o achar vai pensar que é uma bandana tribal e vai colocar na cabeça para usar em alguma festa ao som de Calipxo (nem sei como se escreve isso).

Depois, comecei a arrumar a cozinha e preparar os legumes para o jantar - meu filho vem jantar comigo hoje. Então nos lembramos de que é necessário limpar a água da piscina, digo limpar a água e não limpar a piscina, porque esta está perdida de suja e não tem mais dinheiro que chega - não consigo deixá-la limpa – dessa forma, nos satisfazemos em manter a denge longe...

Por uma hora e meia estivemos lá... aspirando, limpando o filtro, aspirando... e a água continua verde musgo (musgo em temporada de chuva abundante...). Aproveitei para dar uma varridinha na frente da casa - as folhas estão tomando conta de tudo, como no castelo da bela adormecida...

Voltei à cozinha para os legumes e vi que precisava dar uma varrida na casa também - vem visita, é filho, mas, vem nora junto, sabe como é...

Vou varrer a casa, vou limpar as verduras e legumes, picar a carne, fazer o jantar, arrumar a cozinha, dar um jeito nos tecidos para amanhã começar cedo.

Amanhã, aliás, teria de pagar umas contas vencidas, mas só começo a receber a partir de amanhã. Acho que logo depois do feriado já posso começar a fazer os pagamentos.

Cortei os cabelos nesta semana, mas olhando para minhas unhas, penso: como era bom quando eu ia à cabelereira todas as semanas para fazer as mãos e os pés, sobrancelhas, depilação, buço e essas coisas...
Tenho um ou dois pelinhos inconvenientes no colo e nem me animo a tirá-los - sempre que penso que preciso buscá-los e eliminá-los logo me vem algo mais importante, ou pelo menos mais urgente, a fazer e penso: afinal ninguém vai ver mesmo...
Desisto.

Hoje tomei a decisão de minha vida - QUERO UM HOMEM.

Então, decidi escrever para minhas amigas e rasgar o verbo, vou fazer a encomenda e se alguém vir meu "pacote" em algum lugar, me avise, eu vou correndo buscar.
Ele tem de ter dinheiro – porque não posso me dar ao luxo de sustentar mais um.
Tem de ser limpo (de unhas limpas e bom hálito);
Já não faço muita questão que leia muito ou que fale sobre literatura, basta que converse um pouco - pode até ser sobre boiada e bosta de vaca - já nem ligo mais.
Mas tem de ter dinheiro – porque gostaria de ser convidada de vez em quando para um programa e não ter de pagar a conta.
Será interessante se gostar de viajar ou pelo mesmo não se importar que eu o faça.
Eu gostarei muito se ele se interessar por meus assuntos, mas se não interessar, que aceite a visita constante de minhas amigas para chás, cervejas, e churrasquinhos em casa - então converso com elas (vocês) e fica tudo bem...

Eu vou amar se ele tiver um lindo sorriso, mas se não der, pelo menos que tenha todos os dentes e que não sejam tortos nem que tenham manchas amarelas de cigarro - será ótimo que não fume, mas se for pedir demais, então tá bom... que seja cigarro com filtro e não de palha...

Pode usar chapéu na cabeça e me levar pra rodeios, não me importo - vou até cantar junto - aprendo fácil!

Em troca, eu dou amor, carinho, fidelidade (que trair, eu não traio), dou dois filhos prontos e dois netos - já não posso ter outros filhos, mas e daí, ele se beneficia da vantagem de não precisar ter a mulher com barriga, enjoada e sem disposição para o sexo - aliás, ofereço sexo também...

Cuido da casa, organizo as festas, recebo os convidados, decoro o lar e cuido para que os criados façam tudo direitinho dentro do casarão - em Minas, São Paulo, Texas ou Goiás - tanto faz... Dou carinho, faço cafuné, sou divertida, inteligente e, é importante lembrar – “sou limpinha"... Além disso, não gosto de fofocas, não brigo com sogra e nem me incomodo se tiver sogra na parada - eu até deixo ela tomar conta da limpeza da casa e do almoço, se ela quiser... nem ligo...
Mas tem de ter dinheiro – porque meu sonho é trabalhar sem ter de pensar nas contas...
Não precisa ser milionário, pode só ser fazendeiro de uma fazenda só, não ligo. Algumas cabeças de gado, “uns porquinho", “umas galinha”, dois ou três cavalos pra gente cavalgar pelas "terra". Não faço questão de que ele leia Veja, mas seria tão bom se ele lesse um pouquinho... Se ele não gosta de ir para Nova York ou Paris, ou Los Angeles, não tem importância, eu digo para ele que pode ficar e eu vou - mas ia gostar tanto se ele fosse... É ruim ter de comprar e carregar tudo sozinha... Além disso, é tão bom ter com quem conversar durante as viagens; ter companhia para ir a cinema, teatros, barzinho, cafés, museus, praças; tirar fotografias, fazer bonecos de neve, rolar nas camas de hotéis...

Cansei, meninas, juro que cansei!

Se encontrarem um homem assim ou se souberem de alguma feira agrária - dessas das boas - por aí, me avisem, vou me embelezar com um belo chapéu de cowboy, uma bota maneira e um batom de quebrar coração... O resto é comigo e a sorte -
Obrigada por entenderem e por colaborarem - vou lavar as verduras e varrer a casa...

Um grande beijo da amiga desolada e esperançosa... (se é que essas duas coisas podem coexistir)

Quando o sol não nasce por si


Quando o sol não nasce por si


Não são muitas as pessoas que admiram os mistérios que existem por trás das velhas moradas inglesas, hoje disponíveis aos locatários menos avisados. Elas são, na maioria das vezes, sobrados cheios de pequenos cômodos interligados por minúsculos corredores sem qualquer iluminação ou aquecimento solar.
Há quem duvide, mas as paredes dessas habitações centenárias relatam através de suas vibrações tudo o que têm visto e ouvido. Se um dia fores à Inglaterra e tiveres de hospedar-te em alguma dessas antigas “caixas de Pandora” – Fica atento!
Durante o inverno, anos atrás, enquanto dividia meu tempo entre o desconforto de um casamento conflituoso e a urgência de completar um romance vitoriano que escrevia, mudei-me para um pequeno e mal mobiliado apartamento de propriedade de um casal de armênios no distrito de Isle of Dogs, em Londres. Da janela de meu apartamento, próximo ao rio Tâmisa, podia-se ver, tanto quanto alcançasse a vista, dúzias de casas de aparência idêntica. Esta visão provocava-me, por razões que desconhecia na época, uma estranha combinação de sentimentos; eu sentia agonia e prazer.
Certa feita, numa manhã gelada, impossibilitada de sair, fiquei em casa a fim de recuperar-me de uma gripe que parecia estar querendo fazer parte de mim. No início da manhã, arrumei as camas, tomei um chá com biscoitos e, como não conseguisse ler ou escrever, aninhei-me numa delicada cadeira de balanço, próxima ao fogo e tentei pensar em nada. Aos poucos, fui-me encolhendo - não me sentia bem. Pensei que pudesse ser o frio simplesmente; talvez fosse o efeito dos remédios que tomara ou até a febre que aumentava rapidamente. De qualquer forma, havia alguma coisa estranha ocorrendo. Era como se eu não estivesse mais lá, como se algo estivesse me transportando a uma realidade que não correspondia àquela que eu conhecia...
De repente, vi-me diante de uma sólida cômoda de madeira escura, bem torneada, com enormes puxadores de ferro pesado e sem brilho. Estava ajoelhada sobre um pequeno tapete de cores opacas e procurava esconder, com muito cuidado, alguns papéis no fundo da última gaveta. Sentia-me acuada; sabia que ele poderia chegar a qualquer momento.
Com movimentos rápidos, porém cautelosos, escondi as folhas enroladas e atadas por uma fitinha de linho branco. Depois, sentei-me, aliviada, na delicada cadeira de balanço que herdara de meu pai. Ia já cochilando quando ouvi os passos malditos daquele homem horrível que tanto me desgraçava a vida. Tive medo, como de costume, mas levantei-me rapidamente e respondi aos seus urros de fera faminta. Desci as escadas correndo e dirigi-me à cozinha onde o fogo já aquecia, em uma grande panela de ferro, o alimento do animal.
Quase sem controlar meu tremor, disse-lhe que estivera atarefada com o bordado nos lençóis de Lady Hearthsworth. Contudo, ele não me ouvia, ele nunca me ouvia. Rapidamente servi-lhe o cozido quente, o conhaque barato e o pão que fizera no dia anterior. Enquanto engolia indistintamente a largos bocados tudo o que estava ao seu alcance, resmungava como se quisesse entreter a si próprio. Discursava sobre como fora seu dia no porto e todas aquelas coisas que aconteciam diariamente: roubos, brigas, discussões e ameaças de morte. Ao terminar o jantar, ele levantou-se, deu um grande e horroroso arroto de satisfação quase plena, tomou um último gole do conhaque e chamou-me para o quarto...
Os dias e as noites seguiam iguais. Minha única alegria era poder sentar-me na velha cadeira de balanço ou deitar-me sobre a cama e, à luz do azeite, escrever minhas histórias. Eram histórias de amor, nas quais donzelas solitárias esperavam ser salvas por heróis de barbas aparadas, mãos limpas e hálito agradável. Desde que meu pai morrera há alguns anos, morreram também minhas chances de um futuro como aquele de meus romances. Deixada só e com poucas reservas, vi-me obrigada a entregar-me àquele portuário a fim de evitar um destino talvez pior na zona do porto. Todavia, restavam-me os sonhos. Eu os escrevia e os vivia secretamente em minha imaginação ainda adolescente. Por duas vezes meu esposo me surpreendera escrevendo e, num comportamento bestial, queimara meus preciosos papéis em meio às brasas do fogão. Eu, desde então, procurava ser cautelosa, escrevia à tardinha antes de ele chegar, enquanto seu jantar era aquecido. A luz era pálida e meus olhos freqüentemente fraquejavam, mas sentia-me tão feliz em poder extravasar todo o conteúdo íntimo de minha alma que às vezes fugia-me o controle do tempo.
Foi num desses dias que ele chegou a casa sem que eu o percebesse. Subiu as escadas e deu-se comigo na cama, de bruços sobre um bloco de folhas de papel pardo, com uma pena encharcada de lágrimas negras à mão, a desfiar um longo rosário de paixões proibidas.
De espanto, saltei da cama derramando a tinta por todo o lençol de puro linho branco, agarrei-me aos papéis que continham o meu eu e tentei balbuciar algo – qualquer coisa que pudesse amansar aquele olhar medonho que me reduzia a um nada absoluto. Ele avançou sobre mim, esbofeteava-me como a um de seus comparsas portuários e dizia coisas que eu jamais pensara ouvir. Então ele tomou para si meus escritos e dirigiu-se à cozinha amaldiçoando tudo e todos a cada passo que dava. Contava de seus desencantos, e dos sacrifícios que tinha de fazer ganhar o seu dinheiro. Amaldiçoou nossa vida e nossa casa. Enquanto falava, já ao pé do fogão, lançava às brasas, uma vez mais, os meus sonhos postos à tinta. As chamas devoravam-nas e as transformavam em uma fumaça azulada – pálida e suave fumaça azulada... Nem ao menos tentei enfrentá-lo, não poderia. Não naquele momento.
Terminada sua empreita, ele tornou a esbofetear-me e, enchendo seu copo de conhaque, ordenou-me que lhe servisse o jantar. Fios de lágrimas e sangue corriam por meu rosto, que já fora jovial e alegre, e eu tentava contê-los com o pano que pendia de minha cintura por sobre o velho e gasto vestido bordado à mão. Ao terminar o jantar ele atirou longe a garrafa vazia, ordenou-me que apanhasse outra na despensa e que subisse ao quarto imediatamente. Iria vingar-se definitivamente. Em dias como este, em que se zangava e bebia por demais, ele me feria com o prazer característico das feras de sua estirpe.
Mas neste dia, não era medo o que eu sentia. Subi as escadas até o quarto, arranquei os lençóis da cama enquanto a besta despia-se e substituí-os por outros tão brancos quanto a palidez que tomara conta de minha pele e deitei-me quieta. Permiti-lhe então, que desonrasse, pela última vez, minha existência; o satisfiz em sua mais brutal índole animal.
Durante a noite, enquanto ele dormia pesadamente, com muita cautela peguei a minha cadeira de balanço e, arrastando meu corpo doído, levei-a para o andar de baixo, junto à porta de saída. Sem o menor ruído, retornei ao quarto, fechei as janelas com a tranca e tirei da última gaveta da cômoda meus antigos escritos, algumas folhas pardas, ainda mudas, minha pena, o que sobrara de minha tinta. Ao sair do quarto, derramei cautelosamente o azeite da lamparina ao redor da cama, estendi então um risco do mesmo azeite até a porta, tranquei-a atrás de mim, ateei fogo à fina linha que escorria próxima aos meus pés e saí, como quem sai de uma reunião de amigos – em paz.
Do lado de fora da casa, junto aos meus restritos pertences, sentada, imóvel, em minha cadeira de balanço, percebia a chegada de um grande número de pessoas. Todos traziam vasilhames com águas e ferramentas para combater o incêndio que se alastrava pela casa. “Há alguém lá dentro?” me perguntavam. “Ela está ferida”, ouvi alguém dizer, “Deve ter caído ao fugir”, uma outra pessoa concluiu... Eu os ouvia, mas não podia responder-lhes. Por fim deixaram-me lá, só, quieta, enquanto lutavam heroicamente contra o fogo que ardia com uma fúria impressionante. As paredes de pedra resistiam às chamas, mas o que havia entre elas era consumido pelo fogo que transformava tudo em fumaça – uma fumaça negra e mal cheirosa.
Conforme o fogo ia sendo finalmente controlado, eu podia vislumbrar meus dias futuros - Os vizinhos viriam ajudar-me a reconstruir o que fora destruído. Alguns o fariam por piedade, outros em troca de pequenos favores. Eu, provavelmente, passaria a receber visitas freqüentes de portuários e já não receberia encomendas de bordados. Contudo, nada mais me importava. Com o tempo, as casas iriam multiplicar-se naquela rua, as pessoas tornar-se-iam cada vez mais indiferentes umas às outras. Ninguém mais se incomodaria com os meus escritos, somente as paredes daquela casa se lembrariam do ocorrido – mas quem dá atenção às histórias que as paredes contam?

(

My wishes


May those dreams you have at night
all come true in the morning light.
May your future be sweet and bright
and all your decisions be right.

May the things you fight for
bring you happiness, and nothing more.

May your inner light forever shine.
And now that you're thirty-nine
May your lips get close to mine
Wilst we share a glass of wine.
(to Chris, 1996)

É assim que eu vejo a mãe




Cheia “dos enfeite"

A mãe é desse jeito: nunca foi à missa, não sei bem porque, mas é fervorosa fã de santos. É fã mesmo que eu quero falar, porque a mãe não é exatamente devota de santo. Ela é fã, do tipo que faz torcida em dia de festa e xinga quando a final resulta em derrota. Que eu sei, a mãe é pouco de ir ao cinema, ela gosta mesmo é filme em DVD. É bem moderna a mãe. Mas já teve seu tempo de ir ao cinema, com namorado que nem podia pôr o braço no ombro dela, senão levava um esculacho. Ela conta que um dia, na matinê, falou pra um moço que ele ia ganhar um terninho de marinheiro se ele se comportasse na sala de cinema. Eu até imagino o carão que o coitado passou.
Sofre de nada a danada, aliás, se sofre, ninguém fica sabendo. Lá tem suas canseiras agora que já criou tanto filho, mas nada que a faça deixar de trabalhar como se tivesse no começo da vida - quando a lida é necessidade gritante. Mas eu me lembro bem do dia em que ela ficou doida. Pouca gente fala disso, talvez porque nem ficaram sabendo da conversa inteira. Mas ela viu na casa de uns velhos, lá cidade de Salto de Pirapora, uma tal de uma cristaleira que tinha pertencido a famílias muito antigas, e depois de ver o móvel, a mãe endoidou. Danou a perguntar se a gente tinha visto uma tal de jaqueta verde, que ninguém nem sabia da existência e, aí, esqueceu de um montão de coisas e ficou mesmo parecendo doida. Eu, que tenho fé na cura dos doidos, levei lá na casa do pai, um homem adepto das pequenas bruxarias. E ele fez lá uns riscos no chão - trancado no quarto junto com ela, fez reza forte e, por fim, lá saiu ela - "curada", sem nem saber se o que eu contava era verdade. Mas que é, é!
Quando eu fiquei moça, me lembro de uma bronca enorme que ela me deu, "em público", porque eu esqueci de esconder a minha "fraldinha" lá no banheiro. Já se vão lá quase quarenta anos que isso aconteceu, mas lembro como se fosse hoje mesmo - a vergonha que eu passei. Mas adivinhar é que a gente não adivinha as coisas. Se ninguém ensina, leva um tempo pra aprender sozinha. Meu primeiro namorado, que eu trouxe em casa pra conhecer a família, era um moço mais velho do que eu, bonito e formado em engenharia. A mãe, na época, fazia Direito, nunca que ia ser advogada, mas queria provar que podia ser mais que uma "nega beiçuda", como o pai comparou ela um dia. Meu namorado adorava conversar com a mãe. Ela sempre soube de muitas coisas, e era bem divertida. Então, ele chegava em casa, me dava um beijinho e se punha na cozinha pra conversar com ela - até a hora de ir embora. Sempre foi divertida a mãe...
Quando eu completei onze anos, lá fui eu trabalhar no consultório do pai. Eram dois médicos, o pai e um pediatra. Eu trabalhava depois do almoço, quando saía da escola. Um dia, a mãe falou, assim como quem não quer nada, que ela queria um vaso de flor de azaléia que tinha visto na floricultura. Custava noventa cruzeiros - meu salário inteirinho de um mês, mas eu comprei. Um tempinho depois, ela deu o vaso pra Santa Clara, que era pro meu irmão Alex sarar de alguma doença que eu não me lembro qual era. A flor secou como se fosse arruda carregada de inveja. Ela disse que deu uma coisa que gostava muito porque o Alex era muito importante. Eu acho que entendi bem isso uns anos depois, mas na hora foi duro de verdade. De qualquer forma, eu sempre cuidei dos meninos como se fossem meus filhos, então, acho que valeu o pagamento.
Vive dizendo que quer ficar pra semente. Ela fala que a vida dela é tão boa, que se ela tiver de voltar, quer ser ela mesma, de novo. O palavrão da mãe é "bosta seca", mas se ela está mesmo muito brava, então ela fala "merda - com todas as letras!". Ultimamente, ela tem falado mais merda do que bosta seca....
Finge que não tem medo da morte, e pra provar que seu fingimento é de verdade, ela não procura médico quando precisa, não se cuida direito e não faz o que deveria fazer na idade que tem.
Quando o nosso irmão Hendrix nasceu, ela ficou doida de raiva porque os médicos tiraram dela as esperanças de ter mais filhos. Ela queria doze e só ficou com sete. Foi pena que o Hendrix morreu, ele fez falta pra mim - ia ser meu afilhado. A mãe ficou tão nervosa que disse que era exatamente por isso que ele morreu - porque eu era pé frio. A mãe às vezes é malvada, e nem percebe direito o que fala. Ela assustou muita gente com a cumplicidade dela com tal Santa Clara, eu mesma já vi gente morrer depois da mãe entregar a tal pessoa à santa, em troca de sol ou de outro agrado. Mas agora parece que ela parou com essa amizade. Eu acho é bom.
É uma mulher interessante a mãe. Todo mundo que conhece ela um pouco adora ela. É divertida, cozinha como se fosse uma cozinheira internacional, de Paris ou Roma, e fala de um monte de coisas interessantes. Mas, se ela se desagrada de alguém, aí "a coisa muda de figura", como ela diz. A mãe não poupa pólvora quando se trata de desabonar uma pessoa de seu desagrado. Então, o melhor conselho que eu dou é que as pessoas se mantenham amigas da mãe - é mais saudável pra todo mundo.
Como ela é advogada e porque sempre leu muito, a mãe é boa também nas escritas, especialmente se é pra mandar uma carta pra gente - quando a gente tá bem longe dela. Parece até que o coração dela só sabe gritar de longe, de pertinho, ele se cala. Acho que ele é do tipo encabulado, ou então é outra coisa que eu ainda não entendi.
Na escola, ela não interferiu muito, que eu me lembre. Mas eu lembro que um dia, minha irmã Deinha não quis mais estudar e a mãe colocou ela pra ser a empregada da casa – a Deinha voltou de carreirão pra escola, até virou filósofa depois de uns anos. Uma coisa com que a mãe não se conformava era de eu só gostar de livros finos, e ela ficou foi é muito agradecida ao José Mauro de Vasconcelos, quando eu li um livro dele inteirinho. E depois outro e depois outro... Acho que ela nunca percebeu que o que fez a diferença foi que o estilo dela não era o meu. Também isso eu tive de aprender sozinha, e como eu já disse, sozinha, leva um pouco de tempo...
Cheia de vaidade, já foi a mãe. Na verdade, ela tem é fases. Na fase da vaidade ela ficou foi linda. Seus olhos verdes, brilhando que nem duas esmeraldas, na pele bem bronzeada, faziam dela a mulher mais linda do mundo. Dava gosto na gente apresentar a mãe. Todo mundo falava da boniteza dela. Até hoje ela é linda, acho que é por causa da risada estabanada dela. Parece até que vida não tem mesmo problemas. Mas eu acredito que ela é uma artista, uma poeta a quem Fernando Pessoa não saberia explicar.
De todos os cremes do mundo, tudo que é coisa de manter a belezura, a única coisa que já vi a mãe usar, foi o Leite de Colônia e o perfume Givanchy. Hoje em dia, ela até que investe mais em produtos pros cabelos e um pouco de creme, mas o que trouxe ela até hoje, assim quase que toda conservada, foi o tal Leite de Colônia, nunca teve uma espinha na vida.
Das artes, ela entende da culinária. Mas já foi tricoteira das boas. Lembro bem de cada blusa que me fez. Lamento não ter guardado alguma, pra memória da família. Cada uma tinha uma história. Mas, de repente, são tantas pessoas na família e é tanta miséria neste mundo, que um dia a blusa já não serve mais pra um, e lá se vai pra agasalhar outro.
De seu guarda roupas, nada me causa inveja, mas adoro seus brincos. Queria ter a imponência que mãe tem. O peito erguido e a coragem de usar aqueles brincos enormes. Eu acho até que ficariam bem em mim, se eu tivesse a postura dela. Mas eu sou assim, meio encabulada, meio que sem muita certeza da minha boniteza. Quem sabe, quando eu ficar mais velha ainda, eu adquiro um pouco daquela "falta de vergonha" de ser mais eu.
O pai é que tenta e tenta agradar a mãe, mas não é tarefa fácil, coitado. Um dia, ele deu pra ela um porta pó-de-arroz que tocava música. Era lindo. Já faz muito tempo que isso aconteceu. Ela não gostou muito, e eu, pra ajudar ele a acertar, fui contar o que ela disse: "O que eu vou fazer com uma caixa de pó-de-arroz, que toca música?" No fim, ela ficou muito brava comigo, de verdade. E ele ficou triste - acho que preferia não saber. Depois da caixinha de pó-de-arroz, já tiveram muitos outros presentes, mas eu fico é de boca fechada.
Já completou setenta-e-cinco anos, a mãe. Vai completar mais um neste maio. A vida dela é de causar inveja em muita gente. Nada faz falta, nada é problema, nada tem mais importância do que o hoje. Acho que agora ela aprendeu a rezar, porque volta e meia leio uma palavrinha de amor cristão nas mensagens dela enviadas às netas e noras, por correio eletrônico. Mas Deus está de bem com ela, porque ela é agradecida do presente da vida. Acho que ela sabe disso, por isso ri tanto.
Gosto de ver a mãe aos domingos, gosto de saber que ela está lá, caraminholando sobre qual vai ser sua próxima aventura, seu próximo investimento financeiro - se em flores, panelas ou ingredientes culinários. Eu amo a mãe, com seus sins e nãos e por mais que fuja de alguns de seus exemplos, acho que no fim vou ficando um pouco parecida com ela, porque os bons exemplos são fortes e acabam sendo mais fortes do que os outros.
Que o Senhor abençoe a mãe e o pai e os meus irmãos.
Que a gente possa ainda ter muitos anos junto com ela e suas maluquices - a "vó maqaqa".
(27/02/2005)

To my little ones (on their graduation - 1999)


I am on this journey, which does not seem very long, to God knows where...
Through the glassy window I look for beauty and peaceful scenery.
Many sit next to me, one or more at a time. Many I don’t even notice, as they make no difference: there’s no sound, no perfume, no touch...
But others, so few in number, do have a fine scent, and their bodies’ heat warms my lonely heart as their voices enchant my heedful ears. We share a refined pleasure in showing each other the little rows of tiny flowers along the way. We happily laugh together as we see the cattle calmly grazing while the wind plays in the meadow and the sun light warms the workers’ backs.
We may, here and there, have the chance of showing each other the sun rise ahead of us, or its set not far behind...
So very few in number are those special souls. Some will get off before me, some will go on to farther stations, but the time we spend together does make a difference: it makes the journey worthwhile, it makes it pleasant, it makes it meaningful.
As you now move on to another seat, my friends, I’d like to thank you for the time you spent with me, I’d like you to know I’ve learned a lot with you and I shall always have you in my thoughts – as I proceed on my journey.
Enjoy yourselves. Make the most of your own journey and make sure Happiness is always sitting next to you. And remember: You are a well loved child.

Acróstico - Stevaux


S aber dizer o que me veio à mente depois de tanto
T empo sem vê-lo, sem ouvir falar de ti, sem
E sperar jamais
V oltar a tocar tua pele - num
A braço,
U m beijo amigo... Quisera saber contar como foi esse reencontro.
Xale, Xadrês, Xamâ... mais do que perdida no X, sinto-me perdida na confusão de meus sentimentos.

XOXO :)

Tu te ausentas de mim


(23/01/2009)
Busco na noite de meus pensamentos
Alguma presença de ti
Tateio na noite de minhas lembranças
Tocando memórias no ar

Música, dança, um abraço, a fumaça
Vestígios amorfos que posso tocar
Meu corpo embalado num lento compasso,
Dos corpos colados eu posso lembrar.

Busco na noite da minha memória
Um rosto, uma voz que eu já disse amar,
O resto de um cheiro que insiste em ficar
Perfuma meu sonho de te reencontrar

A turma, a garagem, vitrola a tocar
Imagens concretas que tento abraçar
Na noite profunda de meu recordar
A tua presença eu busco encontrar.

Despertar



(23/6/95)

O objeto de meu amor
Não há que me completar
Posto que não somos metades

Não há que se dividir
Posto que só inteiros
Somos completos

Não há que me causar ciúmes
Posto que completos
Nada tememos.

O objeto de meu amor
Há que ser amado, simplesmente,
Posto que o sendo me faz feliz.