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sábado, maio 15, 2010

Quando o sol não nasce por si


Quando o sol não nasce por si


Não são muitas as pessoas que admiram os mistérios que existem por trás das velhas moradas inglesas, hoje disponíveis aos locatários menos avisados. Elas são, na maioria das vezes, sobrados cheios de pequenos cômodos interligados por minúsculos corredores sem qualquer iluminação ou aquecimento solar.
Há quem duvide, mas as paredes dessas habitações centenárias relatam através de suas vibrações tudo o que têm visto e ouvido. Se um dia fores à Inglaterra e tiveres de hospedar-te em alguma dessas antigas “caixas de Pandora” – Fica atento!
Durante o inverno, anos atrás, enquanto dividia meu tempo entre o desconforto de um casamento conflituoso e a urgência de completar um romance vitoriano que escrevia, mudei-me para um pequeno e mal mobiliado apartamento de propriedade de um casal de armênios no distrito de Isle of Dogs, em Londres. Da janela de meu apartamento, próximo ao rio Tâmisa, podia-se ver, tanto quanto alcançasse a vista, dúzias de casas de aparência idêntica. Esta visão provocava-me, por razões que desconhecia na época, uma estranha combinação de sentimentos; eu sentia agonia e prazer.
Certa feita, numa manhã gelada, impossibilitada de sair, fiquei em casa a fim de recuperar-me de uma gripe que parecia estar querendo fazer parte de mim. No início da manhã, arrumei as camas, tomei um chá com biscoitos e, como não conseguisse ler ou escrever, aninhei-me numa delicada cadeira de balanço, próxima ao fogo e tentei pensar em nada. Aos poucos, fui-me encolhendo - não me sentia bem. Pensei que pudesse ser o frio simplesmente; talvez fosse o efeito dos remédios que tomara ou até a febre que aumentava rapidamente. De qualquer forma, havia alguma coisa estranha ocorrendo. Era como se eu não estivesse mais lá, como se algo estivesse me transportando a uma realidade que não correspondia àquela que eu conhecia...
De repente, vi-me diante de uma sólida cômoda de madeira escura, bem torneada, com enormes puxadores de ferro pesado e sem brilho. Estava ajoelhada sobre um pequeno tapete de cores opacas e procurava esconder, com muito cuidado, alguns papéis no fundo da última gaveta. Sentia-me acuada; sabia que ele poderia chegar a qualquer momento.
Com movimentos rápidos, porém cautelosos, escondi as folhas enroladas e atadas por uma fitinha de linho branco. Depois, sentei-me, aliviada, na delicada cadeira de balanço que herdara de meu pai. Ia já cochilando quando ouvi os passos malditos daquele homem horrível que tanto me desgraçava a vida. Tive medo, como de costume, mas levantei-me rapidamente e respondi aos seus urros de fera faminta. Desci as escadas correndo e dirigi-me à cozinha onde o fogo já aquecia, em uma grande panela de ferro, o alimento do animal.
Quase sem controlar meu tremor, disse-lhe que estivera atarefada com o bordado nos lençóis de Lady Hearthsworth. Contudo, ele não me ouvia, ele nunca me ouvia. Rapidamente servi-lhe o cozido quente, o conhaque barato e o pão que fizera no dia anterior. Enquanto engolia indistintamente a largos bocados tudo o que estava ao seu alcance, resmungava como se quisesse entreter a si próprio. Discursava sobre como fora seu dia no porto e todas aquelas coisas que aconteciam diariamente: roubos, brigas, discussões e ameaças de morte. Ao terminar o jantar, ele levantou-se, deu um grande e horroroso arroto de satisfação quase plena, tomou um último gole do conhaque e chamou-me para o quarto...
Os dias e as noites seguiam iguais. Minha única alegria era poder sentar-me na velha cadeira de balanço ou deitar-me sobre a cama e, à luz do azeite, escrever minhas histórias. Eram histórias de amor, nas quais donzelas solitárias esperavam ser salvas por heróis de barbas aparadas, mãos limpas e hálito agradável. Desde que meu pai morrera há alguns anos, morreram também minhas chances de um futuro como aquele de meus romances. Deixada só e com poucas reservas, vi-me obrigada a entregar-me àquele portuário a fim de evitar um destino talvez pior na zona do porto. Todavia, restavam-me os sonhos. Eu os escrevia e os vivia secretamente em minha imaginação ainda adolescente. Por duas vezes meu esposo me surpreendera escrevendo e, num comportamento bestial, queimara meus preciosos papéis em meio às brasas do fogão. Eu, desde então, procurava ser cautelosa, escrevia à tardinha antes de ele chegar, enquanto seu jantar era aquecido. A luz era pálida e meus olhos freqüentemente fraquejavam, mas sentia-me tão feliz em poder extravasar todo o conteúdo íntimo de minha alma que às vezes fugia-me o controle do tempo.
Foi num desses dias que ele chegou a casa sem que eu o percebesse. Subiu as escadas e deu-se comigo na cama, de bruços sobre um bloco de folhas de papel pardo, com uma pena encharcada de lágrimas negras à mão, a desfiar um longo rosário de paixões proibidas.
De espanto, saltei da cama derramando a tinta por todo o lençol de puro linho branco, agarrei-me aos papéis que continham o meu eu e tentei balbuciar algo – qualquer coisa que pudesse amansar aquele olhar medonho que me reduzia a um nada absoluto. Ele avançou sobre mim, esbofeteava-me como a um de seus comparsas portuários e dizia coisas que eu jamais pensara ouvir. Então ele tomou para si meus escritos e dirigiu-se à cozinha amaldiçoando tudo e todos a cada passo que dava. Contava de seus desencantos, e dos sacrifícios que tinha de fazer ganhar o seu dinheiro. Amaldiçoou nossa vida e nossa casa. Enquanto falava, já ao pé do fogão, lançava às brasas, uma vez mais, os meus sonhos postos à tinta. As chamas devoravam-nas e as transformavam em uma fumaça azulada – pálida e suave fumaça azulada... Nem ao menos tentei enfrentá-lo, não poderia. Não naquele momento.
Terminada sua empreita, ele tornou a esbofetear-me e, enchendo seu copo de conhaque, ordenou-me que lhe servisse o jantar. Fios de lágrimas e sangue corriam por meu rosto, que já fora jovial e alegre, e eu tentava contê-los com o pano que pendia de minha cintura por sobre o velho e gasto vestido bordado à mão. Ao terminar o jantar ele atirou longe a garrafa vazia, ordenou-me que apanhasse outra na despensa e que subisse ao quarto imediatamente. Iria vingar-se definitivamente. Em dias como este, em que se zangava e bebia por demais, ele me feria com o prazer característico das feras de sua estirpe.
Mas neste dia, não era medo o que eu sentia. Subi as escadas até o quarto, arranquei os lençóis da cama enquanto a besta despia-se e substituí-os por outros tão brancos quanto a palidez que tomara conta de minha pele e deitei-me quieta. Permiti-lhe então, que desonrasse, pela última vez, minha existência; o satisfiz em sua mais brutal índole animal.
Durante a noite, enquanto ele dormia pesadamente, com muita cautela peguei a minha cadeira de balanço e, arrastando meu corpo doído, levei-a para o andar de baixo, junto à porta de saída. Sem o menor ruído, retornei ao quarto, fechei as janelas com a tranca e tirei da última gaveta da cômoda meus antigos escritos, algumas folhas pardas, ainda mudas, minha pena, o que sobrara de minha tinta. Ao sair do quarto, derramei cautelosamente o azeite da lamparina ao redor da cama, estendi então um risco do mesmo azeite até a porta, tranquei-a atrás de mim, ateei fogo à fina linha que escorria próxima aos meus pés e saí, como quem sai de uma reunião de amigos – em paz.
Do lado de fora da casa, junto aos meus restritos pertences, sentada, imóvel, em minha cadeira de balanço, percebia a chegada de um grande número de pessoas. Todos traziam vasilhames com águas e ferramentas para combater o incêndio que se alastrava pela casa. “Há alguém lá dentro?” me perguntavam. “Ela está ferida”, ouvi alguém dizer, “Deve ter caído ao fugir”, uma outra pessoa concluiu... Eu os ouvia, mas não podia responder-lhes. Por fim deixaram-me lá, só, quieta, enquanto lutavam heroicamente contra o fogo que ardia com uma fúria impressionante. As paredes de pedra resistiam às chamas, mas o que havia entre elas era consumido pelo fogo que transformava tudo em fumaça – uma fumaça negra e mal cheirosa.
Conforme o fogo ia sendo finalmente controlado, eu podia vislumbrar meus dias futuros - Os vizinhos viriam ajudar-me a reconstruir o que fora destruído. Alguns o fariam por piedade, outros em troca de pequenos favores. Eu, provavelmente, passaria a receber visitas freqüentes de portuários e já não receberia encomendas de bordados. Contudo, nada mais me importava. Com o tempo, as casas iriam multiplicar-se naquela rua, as pessoas tornar-se-iam cada vez mais indiferentes umas às outras. Ninguém mais se incomodaria com os meus escritos, somente as paredes daquela casa se lembrariam do ocorrido – mas quem dá atenção às histórias que as paredes contam?

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quinta-feira, maio 13, 2010

Um beijo a Sinhana



Numa dessas noites em que entregamos a Deus alguns momentos que não nos foi possível preencher com tarefas diárias e lucrativas, encontrei-me pela primeira vez num centro espírita onde se desenvolvia um trabalho com pretos velhos.
Sobre a mesa, no meio da sala, havia uma jarra d’água que por alguma razão me prendia a atenção. Aos poucos, senti-me completamente desligada daquela realidade e deixei-me transportar à minha infância; um tempo em que a natureza e eu éramos indistintas.
Minha família tinha um belo sobradinho no Cerrado, não distante do centro de Sorocaba, onde meus irmãos e eu estudávamos. Éramos muitos filhos e cabia aos mais velhos cuidar dos mais novos.
Maria Déa, minha irmã mais velha, era a que me levava ao grupo escolar. Minha mãe nos dava dinheiro para as passagens de ônibus, mas costumávamos ir a pé. O dinheiro era reservado para um picolé, um doce, ou, não raro, para uma fotonovela que compraríamos na Tabacaria da Sé, nos dias em que corajosamente matássemos as aulas. Naquele tempo, não era fácil matar as aulas; a cidade era pequena e as crianças uniformizadas, em horário de aula, não passavam despercebidas pelas ruas do centro. Porém, minha irmã era astuta; com a sabedoria que têm as irmãs mais velhas, ela me conduzia por entre as árvores e bancos da praça da Sé e, com com muita agilidade, num minuto, estaríamos no Zoológico da cidade que ficava então, às margens do rio Sorocaba, sob a ponte Delosso..
Deinha era sempre a primeira a ler a fotonovela; ela era a mais velha, a mais sábia e – a mais forte.
Enquanto aguardava a minha vez, gostava de me deitar à beira do rio. Passivamente deixava-me envolver por aquele ruído quase inaudível que aos poucos fundía-se ao ruído da vida que fluía em minhas veias.
Num desses dias, lembro-me de estar muito cansada, quando me deitei, como de costume, enquanto Déa buscava um lugar à sombra para ler em paz. Acho que adormeci.


De repente ouvi a voz de Sinhana, que me chamava aos gritos: “Venha cá negrinho matreiro. Não vê que o Sinhozinho quer visitar a roça?”
Sinhana sempre me chamava aos gritos. Ela era uma boa mulher; talvez fosse mesmo a minha mãe – não sabíamos bem. No dia em que eu vim a o mundo, veio também um outro moleque; de igual porte e semelhante feição. Fomos, os dois, colocados juntos, para que uma só negra nos amamentasse. Sinhana, por sua vez, teve de dar seu peito ao filho de Sinhozinho que havia nascido alguns dias antes e que não podia ser alimentado pela mãe pálida e franzina.
Alguns anos mais tarde, o moleque que crescera comigo foi vendido para a fazenda do Sr. Aguiar, do outro lado do rio. Sinhana nunca soube ao certo qual de nós era seu filho, mas dava-lhe conforto pensar que podia ser eu.

Aos berros de Sinhana, levantei-me de um só golpe e corri para ajeitar o cavalo predileto de Sinhozinho. Era um baio grande e ligeiro – inveja dos arredores.
Sinhozinho pegou as rédeas do animal e num gesto já conhecido meu, ordenou-me que corresse. Ele sempre me levava consigo as suas cavalgadas na roça; receava ser molestado por algum “negro injusto”, dizia.
Nunca entendi bem o porquê daquele medo; era ele quem tinha o berro preso à sela, era ele quem comandava o feitor e, na pior das hipóteses, era ele quem tinha o baio. De qualquer forma, gostava de levar-me consigo.
Ao seu sinal, então, pus-me a correr em direção à roça. O baio trotava acelerado e, não raro, passava-me a frente.
“Corre moleque”, dizia Sinhozinho. “Corre que não vim aqui para passear.” Isso sempre acontecia assim.
Um dia, porém, decidi que era hora de mostrar àquele homem quase sem beiço que não poderia continuar correndo daquela maneira; minhas pernas eram fortes e ligeiras, mas não poderia continuar correndo à frente do baio, varrendo sempre o caminho por onde eles passariam.
Foi então que resolvi fugir. Já ouvira falar de muitos negros fugidos e sabia que era arriscado; mas resolvi tentar minha sorte.
À noite, depois que todos foram dormir, sentei-me ao lado de Sinhana, ao pé do fogão, comi um pouco de canjica com bolo de fubá que ela fizera, e falei-lhe de meus sonhos de viver livre, de ir ao mar e lançar-me, quem sabe a nado, às terras de África. Tantas histórias eu já ouvira de Àfrica, histórias cantadas pelos negros nas roças, ou nos cantos das senzalas. Sinhana arregalou seus enormes olhos negros e danou a dar-me tapas por toda pele. “Negrinho bobo, você foge, eles te pegam e Sinhana fica sem filho nenhum”.
Senti pena de Sinhana, mas meu sonho de liberdade era maior do que qualquer outro sentimento e, antes do alvorecer, embrenhei-me na mata às margens do rio que havia atrás da casa grande e segui o rumo da correnteza que me levaria ao sol. Eu sabia que o sol nascia no mar e era para o mar que eu queria ir.
Não sei quanto corri. Sentia fome, minhas pernas tremiam e minha vista falhava. Caí ao chão exausto e acho que adormeci.
De repente, num susto, abri os olhos e dei com dois homens enormes sobre mim; um branco e um negro. Eles não fizeram perguntas. Não pareciam ter dúvidas. Aliviaram um pouco da tensão em que viviam sobre mim e, por fim, ataram meus pés a pesadas correntes.
“Corre moleque”, disse o negro.
Meu corpo todo doía, minha pele sangrava e mesmo que não estivesse amarrado, não poderia correr – mas tive de andar. Andei um caminho que parecia não ter fim; um caminho que me distanciava, cada vez mais, do sol...

Sinhana olhava de longe, com os olhos cheios d’água e eu evitava encará-la.
Foram cinquenta chibatadas no couro nu. O número havia sido estipulado pelo filho de Sinhozinho que, apesar dos choramingos de Sinhana, não parecia ter no peito qualquer coisa que se assemelhasse à piedade.
Passei toda a noite atado ao tronco. Pela manhã, fui solto após um discurso de Sinhozinho a todos os negros que pudessem estar pensando em fugir.
Fui, então, levado à senzala e lá pude chorar baixinho toda a dor do físico e da alma...
Os dias seguintes se passaram sem muita anarquia ou novidade. Era sempre assim depois de uma “boa lição”.
Voltei a correr à frente do baio e passei também a trabalhar no corte de lenha para o fogão, no transporte do angu para os negros na roça e no debulhe do milho.
O filho do Sinhozinho dizia que se estivesse trabalhando, não estaria sonhando com bobagens.
Era verdade. Eu não sonhava com bobagens. Tudo com que sonhava era o mar. Mas não ousaria buscá-lo tão cedo. Dera minha palavra a Sinhana.
Certa feita, quando empilhava a lenha que seria cortada, meti minha mão num feixe e deixei-me picar por uma aranha que ali fizera seu ninho. Foi tanta a dor que senti que me pus a correr como um louco.
Sinhana, sem saber o que se passava, implorava para que eu parasse. O feitor ordenou-me que voltasse imediatamente, e eu corria desesperado em direção à água fresca do rio que deveria acalmar a minha dor.
Sinhozinho, atraído pelos gritos, saiu à varanda com seu berro em punho e deu três tiros.
De súbito, senti-me rolar lenta e pesadamente, barranco abaixo. Minha visão estava turva, calafrios e ondas de calor percorriam simultaneamente todo o meu corpo. Deixei-me, então, cair n’água fria e límpida do rio que chamavam de Sorocaba.

Ao longe, Sinhana me chamava aos gritos.
Já não sentia dor quando, passivamente, deixei-me envolver pelo estrondoso ruído das águas que violentamente fundia-se ao silêncio que interrompia o fluir da vida em minhas veias.

Um grito que não existiu


Às cinco horas e quarenta e cinco minutos da manhã, ao soar escandaloso do relógio de cabeceira, Eco despertou, levantou-se lenta e calmamente e abriu a janela de seu quarto. Sentia uma estranha necessidade de iniciar aquele dia saudando as flores de seu jardim. Mas, nessa manhã, Eco não pode vê-las, as flores não estavam lá; era, na verdade, como se nunca tivessem estado. Em lugar de flores só havia mato, pragas, ervas daninhas... Eco não compreendeu o que teria acontecido, mas também não dedicou muito tempo a pensar no assunto. Assim, o “desaparecimento repentino” do jardim não alterou seu ritmo. “Preciso de um café”, pensou.
Ao ir preparar o café da manhã, passou pelo dormitório que havia sido de seus filhos, abriu as janelas e murmurou um “bom dia” suave, sem esperança de resposta - não porque as crianças já não estivessem ali, mas porque seu “bom dia” há muito não obtinha qualquer resposta. Caminhou em seguida para a cozinha, abriu as cortinas e, só neste momento, notou que o dia estava acinzentado, o quintal encharcado, o varal, cheio de roupas, prostrado ao chão. Era evidente que chovera a noite toda. “Que terá havido com as flores? - pensou - Talvez a chuva as tenha levado. Talvez o vento tenha sido impiedoso...”

Depois do café com pão e queijo, Eco tomou um banho bem quente e demorado, como sempre costumava fazer; vestiu-se em roupas confortáveis, quentinhas, e voltou a tomar mais um café.
Às sete e cinco sentou-se à frente de seu computador e começou a escrever. Trabalhava em seu terceiro romance; a editora dera-lhe um prazo menor desta vez e ela teria de terminá-lo logo. Seus pensamentos, então, fugiram do jardim, das crianças, da chuva... Tudo em que pensava era no que deveria acontecer a Narciso e Astréia – ela precisava dar-lhes um final feliz – leitores esperam um final feliz.
Eco trabalhou por horas a fio até que sentiu uma certa fraqueza, seus músculos estavam rijos, sua cabeça doía. Talvez tivesse fome. Antes de desligar o computador checou seu correio eletrônico, na esperança de haver lá um alô de um dos filhos, ou talvez de um amigo... Há meses não recebia senão notícias das editoras e propagandas de novos sites. Nesse dia não foi diferente... Com um falso descaso, Eco levantou-se e dirigiu-se à cozinha, em um movimento lento, quase automático. Abriu uma lata de atum, uma de milho e uma de ervilha; picou uma cebolinha, um pouco de cheiro verde e, lançando mão de uma boa colherada de maionese, fez uma salada que comeu com pão, acompanhada de goles de um refrigerante já sem gás que era tomado aos poucos – há dias...
Ainda à mesa, Eco cogitou a possibilidade de falar com alguém, sentia a necessidade de trocar algo, embora não soubesse bem o que ou com quem. Ela vivia sozinha desde que se divorciara, há alguns anos, e seus filhos optaram por viver suas próprias vidas em cidades diferentes. A filha estudava medicina em São Paulo, e o filho, já formado em música, vivia em Milão com a esposa e o neném, que ela ainda não tivera a chance de ter em seus braços. Eco havia conhecido muita gente ao longo de sua vida, mas fizera poucos amigos. Com o tempo, os conhecidos tomaram seus rumos, e os amigos... Bem, talvez não fossem tão amigos assim. Eco já não sabia do paradeiro de nenhum deles. Ela os havia procurado uma ou outra vez, mas não conseguira manter o contato. Na verdade, ela mudara muito; tornara-se áspera em resposta às peças que a vida lhe pregara e talvez as pessoas não se sentissem muito à vontade diante de seu frequente mau humor e sua pouca habilidade em desfrutar o ridículo...
Nesse dia, contudo, ela estava realmente disposta a falar com alguém; tentou telefonar para dois ou três números de sua agenda, mas não obteve resultado positivo. Então, voltou ao computador e mais uma vez abriu o correio – quem sabe algo novo teria chegado neste ínterim...
Nenhuma mensagem nova! Com um ligeiro suspiro, disfarçou seu desapontamento, acomodou-se em sua cadeira e retornou aos escritos...

À noite, ela estava exausta, sua cabeça doía ainda mais, sua nuca e ombros ardiam como se houvesse brasa sobre eles. Resolveu sair um pouco. Trocou de roupa, colocou os sapatos de passear, escovou os belos cabelos louros, lisos como águas serenas em alto mar, borrifou uma colônia suave por cima do casaco e saiu.
No carro, em direção ao centro movimentado da cidade, pensava em Narciso e Astréia. Como deveriam acabar? Ela os queria longe um do outro, pensava que talvez eles devessem recomeçar suas vidas e tentar ser felizes com outros pares. Porém, o tempo era curto demais para que se pudesse criar uma situação ideal para cada um dos dois; o romance deveria ser entregue com urgência. Eco precisaria de mais alguns dias, ou meses, para poder tecer as minuciosas artimanhas da felicidade chegando depois de uma triste e doída separação. Com a pressa da editora, a única saída seria fazer com que Astréia o perdoasse e o permitisse voltar para casa como se nada houvesse acontecido – a traição, os dias de tristeza, a vergonha, a humilhação...
De repente, Eco percebeu que não estava indo a lugar algum, dirigia em círculos há um longo tempo. Sentindo-se um tanto tola, estacionou seu carro num lugar qualquer e resolveu andar até um barzinho, ou um restaurante. Talvez encontrasse alguém interessante e pudesse trocar algumas ideias. Enquanto caminhava, via, por todo lado, gente rindo e falando alto. Pensava em o que os divertia tanto. Há muito ela não ria às gargalhadas.
Depois de ir e vir de um lado e de outro na larga avenida principal da cidade, Eco decidiu entrar num Piano Bar e pedir um chopp. Aquele parecia ser um local aprazível. As pessoas ali não eram tão barulhentas, e sorriam mais do que riam, isto a agradava. Sentou-se a uma mesa um tanto distante do piano, de forma a poder ouvir o almejado som de suaves vozes humanas, e aguardou ser servida.

Ao aproximar-se o garçom, Eco esboçou um sorriso franco de quem quer, finalmente, mostrar sua simpatia. Todavia, o homenzinho, que devia estar lá com seus próprios pensamentos, nem pelo dever de fazê-lo devolveu-lhe o sorriso. Eco, decidida a não desistir, olhou a sua volta para ver se reconhecia algum rosto na multidão, algum par de olhos que pudessem estar sendo dirigidos a ela, alguém com quem pudesse partilhar aquele momento.
As pessoas, contudo, lhe eram totalmente indiferentes. Subitamente, sua aguda e sensível percepção fê-la ver, como se através de um velho e cruel espelho encantado, que ela se tornara invisível aos olhos humanos...
Não havia ali um único ser disposto a dirigir-lhe um olhar ou uma palavra; impossível seria pretender que alguém pudesse estar propenso a ouvi-la.
Como se um raio a tivesse atingido, Eco sentiu o impiedoso golpe da solidão constatada, indiscutível. Simultaneamente, ela foi tomada por uma violenta fisgada no peito. Levando as mãos ao ponto de origem da dor, tão insuportavelmente dominadora, sentiu seu corpo contrair-se, fechando-se como uma ostra que, ao proteger-se, esconde seu misterioso e delicado interior.
Com a mente envolta em pensamentos irrequietos, Eco via passar à frente de sua visão obscurecida os filhos, a chuva da madrugada, o jardim... Que teria acontecido ao jardim? Ele desaparecera de sua janela como a alegria desaparecera de seu viver – sem que ela o percebesse. Não notara que aos poucos o brilho e o colorido davam lugar às coisas nocivas, pouco ditosas. Em meio a essas reflexões tardias, sem deixar evadir de si um mínimo ruído, Eco tombou – completamente sem vida - no áspero e álgido piso do bar.
Em segundos, havia a sua volta uma multidão de olhos atentos, que vinham de todos os lados. Pessoas pareciam brotar de todos os lugares. Vozes curiosas demostravam um interesse desmedido por aquela incógnita criatura. Todos se perguntavam quem seria, de onde teria vindo, o que teria lhe acontecido, por que estaria sozinha...