sábado, maio 15, 2010

É assim que eu vejo a mãe




Cheia “dos enfeite"

A mãe é desse jeito: nunca foi à missa, não sei bem porque, mas é fervorosa fã de santos. É fã mesmo que eu quero falar, porque a mãe não é exatamente devota de santo. Ela é fã, do tipo que faz torcida em dia de festa e xinga quando a final resulta em derrota. Que eu sei, a mãe é pouco de ir ao cinema, ela gosta mesmo é filme em DVD. É bem moderna a mãe. Mas já teve seu tempo de ir ao cinema, com namorado que nem podia pôr o braço no ombro dela, senão levava um esculacho. Ela conta que um dia, na matinê, falou pra um moço que ele ia ganhar um terninho de marinheiro se ele se comportasse na sala de cinema. Eu até imagino o carão que o coitado passou.
Sofre de nada a danada, aliás, se sofre, ninguém fica sabendo. Lá tem suas canseiras agora que já criou tanto filho, mas nada que a faça deixar de trabalhar como se tivesse no começo da vida - quando a lida é necessidade gritante. Mas eu me lembro bem do dia em que ela ficou doida. Pouca gente fala disso, talvez porque nem ficaram sabendo da conversa inteira. Mas ela viu na casa de uns velhos, lá cidade de Salto de Pirapora, uma tal de uma cristaleira que tinha pertencido a famílias muito antigas, e depois de ver o móvel, a mãe endoidou. Danou a perguntar se a gente tinha visto uma tal de jaqueta verde, que ninguém nem sabia da existência e, aí, esqueceu de um montão de coisas e ficou mesmo parecendo doida. Eu, que tenho fé na cura dos doidos, levei lá na casa do pai, um homem adepto das pequenas bruxarias. E ele fez lá uns riscos no chão - trancado no quarto junto com ela, fez reza forte e, por fim, lá saiu ela - "curada", sem nem saber se o que eu contava era verdade. Mas que é, é!
Quando eu fiquei moça, me lembro de uma bronca enorme que ela me deu, "em público", porque eu esqueci de esconder a minha "fraldinha" lá no banheiro. Já se vão lá quase quarenta anos que isso aconteceu, mas lembro como se fosse hoje mesmo - a vergonha que eu passei. Mas adivinhar é que a gente não adivinha as coisas. Se ninguém ensina, leva um tempo pra aprender sozinha. Meu primeiro namorado, que eu trouxe em casa pra conhecer a família, era um moço mais velho do que eu, bonito e formado em engenharia. A mãe, na época, fazia Direito, nunca que ia ser advogada, mas queria provar que podia ser mais que uma "nega beiçuda", como o pai comparou ela um dia. Meu namorado adorava conversar com a mãe. Ela sempre soube de muitas coisas, e era bem divertida. Então, ele chegava em casa, me dava um beijinho e se punha na cozinha pra conversar com ela - até a hora de ir embora. Sempre foi divertida a mãe...
Quando eu completei onze anos, lá fui eu trabalhar no consultório do pai. Eram dois médicos, o pai e um pediatra. Eu trabalhava depois do almoço, quando saía da escola. Um dia, a mãe falou, assim como quem não quer nada, que ela queria um vaso de flor de azaléia que tinha visto na floricultura. Custava noventa cruzeiros - meu salário inteirinho de um mês, mas eu comprei. Um tempinho depois, ela deu o vaso pra Santa Clara, que era pro meu irmão Alex sarar de alguma doença que eu não me lembro qual era. A flor secou como se fosse arruda carregada de inveja. Ela disse que deu uma coisa que gostava muito porque o Alex era muito importante. Eu acho que entendi bem isso uns anos depois, mas na hora foi duro de verdade. De qualquer forma, eu sempre cuidei dos meninos como se fossem meus filhos, então, acho que valeu o pagamento.
Vive dizendo que quer ficar pra semente. Ela fala que a vida dela é tão boa, que se ela tiver de voltar, quer ser ela mesma, de novo. O palavrão da mãe é "bosta seca", mas se ela está mesmo muito brava, então ela fala "merda - com todas as letras!". Ultimamente, ela tem falado mais merda do que bosta seca....
Finge que não tem medo da morte, e pra provar que seu fingimento é de verdade, ela não procura médico quando precisa, não se cuida direito e não faz o que deveria fazer na idade que tem.
Quando o nosso irmão Hendrix nasceu, ela ficou doida de raiva porque os médicos tiraram dela as esperanças de ter mais filhos. Ela queria doze e só ficou com sete. Foi pena que o Hendrix morreu, ele fez falta pra mim - ia ser meu afilhado. A mãe ficou tão nervosa que disse que era exatamente por isso que ele morreu - porque eu era pé frio. A mãe às vezes é malvada, e nem percebe direito o que fala. Ela assustou muita gente com a cumplicidade dela com tal Santa Clara, eu mesma já vi gente morrer depois da mãe entregar a tal pessoa à santa, em troca de sol ou de outro agrado. Mas agora parece que ela parou com essa amizade. Eu acho é bom.
É uma mulher interessante a mãe. Todo mundo que conhece ela um pouco adora ela. É divertida, cozinha como se fosse uma cozinheira internacional, de Paris ou Roma, e fala de um monte de coisas interessantes. Mas, se ela se desagrada de alguém, aí "a coisa muda de figura", como ela diz. A mãe não poupa pólvora quando se trata de desabonar uma pessoa de seu desagrado. Então, o melhor conselho que eu dou é que as pessoas se mantenham amigas da mãe - é mais saudável pra todo mundo.
Como ela é advogada e porque sempre leu muito, a mãe é boa também nas escritas, especialmente se é pra mandar uma carta pra gente - quando a gente tá bem longe dela. Parece até que o coração dela só sabe gritar de longe, de pertinho, ele se cala. Acho que ele é do tipo encabulado, ou então é outra coisa que eu ainda não entendi.
Na escola, ela não interferiu muito, que eu me lembre. Mas eu lembro que um dia, minha irmã Deinha não quis mais estudar e a mãe colocou ela pra ser a empregada da casa – a Deinha voltou de carreirão pra escola, até virou filósofa depois de uns anos. Uma coisa com que a mãe não se conformava era de eu só gostar de livros finos, e ela ficou foi é muito agradecida ao José Mauro de Vasconcelos, quando eu li um livro dele inteirinho. E depois outro e depois outro... Acho que ela nunca percebeu que o que fez a diferença foi que o estilo dela não era o meu. Também isso eu tive de aprender sozinha, e como eu já disse, sozinha, leva um pouco de tempo...
Cheia de vaidade, já foi a mãe. Na verdade, ela tem é fases. Na fase da vaidade ela ficou foi linda. Seus olhos verdes, brilhando que nem duas esmeraldas, na pele bem bronzeada, faziam dela a mulher mais linda do mundo. Dava gosto na gente apresentar a mãe. Todo mundo falava da boniteza dela. Até hoje ela é linda, acho que é por causa da risada estabanada dela. Parece até que vida não tem mesmo problemas. Mas eu acredito que ela é uma artista, uma poeta a quem Fernando Pessoa não saberia explicar.
De todos os cremes do mundo, tudo que é coisa de manter a belezura, a única coisa que já vi a mãe usar, foi o Leite de Colônia e o perfume Givanchy. Hoje em dia, ela até que investe mais em produtos pros cabelos e um pouco de creme, mas o que trouxe ela até hoje, assim quase que toda conservada, foi o tal Leite de Colônia, nunca teve uma espinha na vida.
Das artes, ela entende da culinária. Mas já foi tricoteira das boas. Lembro bem de cada blusa que me fez. Lamento não ter guardado alguma, pra memória da família. Cada uma tinha uma história. Mas, de repente, são tantas pessoas na família e é tanta miséria neste mundo, que um dia a blusa já não serve mais pra um, e lá se vai pra agasalhar outro.
De seu guarda roupas, nada me causa inveja, mas adoro seus brincos. Queria ter a imponência que mãe tem. O peito erguido e a coragem de usar aqueles brincos enormes. Eu acho até que ficariam bem em mim, se eu tivesse a postura dela. Mas eu sou assim, meio encabulada, meio que sem muita certeza da minha boniteza. Quem sabe, quando eu ficar mais velha ainda, eu adquiro um pouco daquela "falta de vergonha" de ser mais eu.
O pai é que tenta e tenta agradar a mãe, mas não é tarefa fácil, coitado. Um dia, ele deu pra ela um porta pó-de-arroz que tocava música. Era lindo. Já faz muito tempo que isso aconteceu. Ela não gostou muito, e eu, pra ajudar ele a acertar, fui contar o que ela disse: "O que eu vou fazer com uma caixa de pó-de-arroz, que toca música?" No fim, ela ficou muito brava comigo, de verdade. E ele ficou triste - acho que preferia não saber. Depois da caixinha de pó-de-arroz, já tiveram muitos outros presentes, mas eu fico é de boca fechada.
Já completou setenta-e-cinco anos, a mãe. Vai completar mais um neste maio. A vida dela é de causar inveja em muita gente. Nada faz falta, nada é problema, nada tem mais importância do que o hoje. Acho que agora ela aprendeu a rezar, porque volta e meia leio uma palavrinha de amor cristão nas mensagens dela enviadas às netas e noras, por correio eletrônico. Mas Deus está de bem com ela, porque ela é agradecida do presente da vida. Acho que ela sabe disso, por isso ri tanto.
Gosto de ver a mãe aos domingos, gosto de saber que ela está lá, caraminholando sobre qual vai ser sua próxima aventura, seu próximo investimento financeiro - se em flores, panelas ou ingredientes culinários. Eu amo a mãe, com seus sins e nãos e por mais que fuja de alguns de seus exemplos, acho que no fim vou ficando um pouco parecida com ela, porque os bons exemplos são fortes e acabam sendo mais fortes do que os outros.
Que o Senhor abençoe a mãe e o pai e os meus irmãos.
Que a gente possa ainda ter muitos anos junto com ela e suas maluquices - a "vó maqaqa".
(27/02/2005)

To my little ones (on their graduation - 1999)


I am on this journey, which does not seem very long, to God knows where...
Through the glassy window I look for beauty and peaceful scenery.
Many sit next to me, one or more at a time. Many I don’t even notice, as they make no difference: there’s no sound, no perfume, no touch...
But others, so few in number, do have a fine scent, and their bodies’ heat warms my lonely heart as their voices enchant my heedful ears. We share a refined pleasure in showing each other the little rows of tiny flowers along the way. We happily laugh together as we see the cattle calmly grazing while the wind plays in the meadow and the sun light warms the workers’ backs.
We may, here and there, have the chance of showing each other the sun rise ahead of us, or its set not far behind...
So very few in number are those special souls. Some will get off before me, some will go on to farther stations, but the time we spend together does make a difference: it makes the journey worthwhile, it makes it pleasant, it makes it meaningful.
As you now move on to another seat, my friends, I’d like to thank you for the time you spent with me, I’d like you to know I’ve learned a lot with you and I shall always have you in my thoughts – as I proceed on my journey.
Enjoy yourselves. Make the most of your own journey and make sure Happiness is always sitting next to you. And remember: You are a well loved child.

Acróstico - Stevaux


S aber dizer o que me veio à mente depois de tanto
T empo sem vê-lo, sem ouvir falar de ti, sem
E sperar jamais
V oltar a tocar tua pele - num
A braço,
U m beijo amigo... Quisera saber contar como foi esse reencontro.
Xale, Xadrês, Xamâ... mais do que perdida no X, sinto-me perdida na confusão de meus sentimentos.

XOXO :)

Tu te ausentas de mim


(23/01/2009)
Busco na noite de meus pensamentos
Alguma presença de ti
Tateio na noite de minhas lembranças
Tocando memórias no ar

Música, dança, um abraço, a fumaça
Vestígios amorfos que posso tocar
Meu corpo embalado num lento compasso,
Dos corpos colados eu posso lembrar.

Busco na noite da minha memória
Um rosto, uma voz que eu já disse amar,
O resto de um cheiro que insiste em ficar
Perfuma meu sonho de te reencontrar

A turma, a garagem, vitrola a tocar
Imagens concretas que tento abraçar
Na noite profunda de meu recordar
A tua presença eu busco encontrar.

Despertar



(23/6/95)

O objeto de meu amor
Não há que me completar
Posto que não somos metades

Não há que se dividir
Posto que só inteiros
Somos completos

Não há que me causar ciúmes
Posto que completos
Nada tememos.

O objeto de meu amor
Há que ser amado, simplesmente,
Posto que o sendo me faz feliz.

A Profissão de Fé do Vigário Saboaino


A Profissão de Fé do Vigário Saboiano (Do Emile, Emílio ou da Educação, de Jean Jacques Rousseau, 1755) é um texto que conduz à introspecção, ao pesar das forças que a Igreja exerce sobre seu fiel – sem que este tome consciência exata de suas dimensões. Nele, Rousseau nos apresenta o conhecimento que o Vigário adquire através de um longo e penoso processo de meditação que o leva a perceber profundamente seus sentimentos. Na defesa de que o encontro com Deus se faz a partir de sentimento sincero e não de leis externas, impostas à força e à revelia, Rousseau, na figura do Vigário Saboiano, relata o desabrochar de uma relação íntima, segura e realizada entre um homem e seu Deus.
Em um diálogo entre o Vigário e um expatriado calvinista, que forçou-se à conversão para poder garantir seu sustento e sobrevivência, o texto oferece-nos uma visita às possibilidades da dúvida e da confusão.
Num processo contínuo, Rousseau inicia sua meditação duvidando de absolutamente tudo que aprendera e fora induzido a crer ao longo sua vida, e atinge o ponto em que nada lhe faz sentido, sendo a incerteza seu marco de chegada. Perdido em sua grande confusão, causada pelos ensinamentos da Igreja (que corrompe, humilha, julga etc), ele inicia um processo de aceitação daquilo que o seu coração lhe diz – o que lhe parece naturalmente verdadeiro e irrefutável. Depois de aceitar sua própria existência, que reconhece através dos sentimentos que o afetam diretamente, ele observa a natureza, a ação e reação de suas forças, e admite que há uma vontade que move o universo e a anima.
Em seguida, reconhece a existência de objetos que ele pode observar, perceber e comparar. Distinguindo entre o perceber e o comparar ele defende que o primeiro é passivo, pois que se limita às sensações e o segundo ativo, uma vez que exige a ação da mente: “agir, comparar, selecionar são operações de um ser ativo e pensante, logo este ser existe”.
Sem a intenção de converter o outro, o Vigário fala apenas daquilo que o seu coração sugere – com muita simplicidade e sem profundos argumentos e pede ao ouvinte que consulte seu próprio coração, para que ateste a verdade de suas palavras.
Defendendo a consciência, ele defende a voz do coração, como superior àquilo que ensina as religiões, pois que aquela voz segue a ordem da natureza ao invés da ordem dos homens.
Em acordo com os ideais do Iluminismo, Rousseau, propõe o pensamento racional em substituição às crenças religiosas que, segundo os iluministas, bloqueavam a evolução humana. Assim, em seu processo racional, o Vigário Saboiano busca respostas que se justificassem para além da fé.
Acreditando, ainda que o homem é por natureza puro, os iluministas diziam que a sociedade o corrompia, portanto, haviam de manter-se puros e fiéis aos seus corações – à natureza e a Deus, de quem é imagem e semelhança.

“Are you a Teacher? Teach them!"


Recesso escolar – Janeiro de 1994. O SENAC São Paulo traz como palestrante, pela segunda vez, a professora inglesa, Jane Revell, autora de três séries de livros didáticos para o ensino do inglês para estrangeiros . No início do ano anterior, quando de sua primeira vinda ao Brasil, uma série de professores de inglês, entre eles eu, adquiriam os livros de Jane para ensino de inglês para crianças (Muzzy in Gondoland 1 e 2), pré adolescente (Cross Country 1; 2 e 3) e jovens (Connect 1; 2 e 3). Ao vê-la, nessa segunda oportunidade, eu tinha um “enorme problema” para entregar a ela – e uma igualmente enorme esperança de que o solucionasse. “As pessoas” não sabem o que são “somosas”, quem é Rene Magritte ou Sherazad, onde fica Majorca, se Boy George é homem ou mulher, que países da Europa ainda têm a monarcas... A grande dificuldade que apresentei a Jane, na época, tinha uma razão de ser – justa e justificável – no meu ponto de vista. Os livros de Jane eram (e ainda são) cheios de informações culturais. Eles traziam arte, costumes do ocidente e do oriente, músicas celtas e rock and roll de porão, etiqueta, informações sobre o dia a dia na Inglaterra e outros países etc. A grande dificuldade era: como conversar com os alunos sobre todas essas coisas das quais eles, em sua grande maioria, nunca ouviram falar – e nem sequer se interessavam em saber? Jane olhou-me nos olhos e perguntou: Are you a teacher?, acrescentando, depois de minha resposta positiva: Teach them!
Todo aquele conteúdo maravilhosamente montado tinha o objetivo de levar não somente aos “estudantes de inglês”, mas aos povos onde o inglês já se infiltrava de maneira irreversiva, cultura, arte, história, compreensão das diferenças entre os diversos povos, diferenças entre as pessoas – “cultura para tolerância”.

Mestrado em Educação - Maio de 2009. Gianni Vattimo me é apresentado como um pós-modernista, suas ideias, como ele mesmo diz, já foram discutidas há 125 anos, por Wilhelm Dilthey. Vattimo propõe uma reforma no ensino. Ainda que não faça uso dessa expressão, sua proposta é uma reforma – uma transformação da escola em suas metas e diretrizes. O objetivo já não é formar técnicos especialistas, como ditava a velha ordem positivista, o comando colonialista, eurocentrado ou (Vattimo também não diz, mas atrevo-me a incluir) centrado no poderio norte-americano. De acordo com Vattimo e a linha de seguidores da nova proposta, há que se formarem cidadãos cultos – e aqui fala-se de uma cultura que vai para além do conhecimento específico do objeto sobre o qual se trabalha – seja uma máquina, um departamento ou toda uma empresa. A crescente aproximação do povos, das culturas, dos saberes, das filosofias e, de forma bem mais delicada, das religiões tem trazido consigo a necessidade urgente de humanização nos relacionamentos.
Para ilustrar sua posição, Vattimo cita a entrada de albaneses na Itália – homens e mulheres que além de não terem uma formação profissional adequada às necessidades daquele país, ainda enfrentam situações de clara e profunda incompatibilidade. O quê, além da educação hermenêutica (conforme o conceito de Richard Rorty), poderia superar os limites impostos pela incompatibilidade (ou intolerância)?
Os seres humanos talvez nunca tenham deixado de ser humanos – na racionalidade e irracionalidade que nos caracteriza (embora às vezes tenhamos a impressão que isso aconteceu aqui e ali...). Mas, também, talvez nunca tenhamos estado tão próximos uns dos outros em tempo de paz, tempos que já não admitem conquistas das terras de uns por outros, conquistas de povos, escravidão humana, domínio imposto - de um sobre muitos. As conquista tecnológicas, a ciência, com toda sua “sabedoria”, a vitória do capitalismo – o percurso da humanidade ao longo de sua história trouxe-nos para este ponto onde estamos no momento presente. Contudo, em acordo com Vattimo penso que a escola deve retomar as humanidades, para que os homens e as mulheres possam utilizar, de forma mais consciente, todo o fruto daquelas conquistas, que possam “cooperar conscientemente para dar à sociedade a forma” que desejamos.
E os professores? O que lhes compete? Compete-lhes “ensinar”.

quinta-feira, maio 13, 2010

Elena


She had been there for hours, sitting in front of that old stubborn computer that would every now and again give her that stupid message saying she had done something illegal and that it would turn off…
“Something illegal”, she’d think every time she turned it on again. “What is illegal?”
Elena had just walked barefoot out of a thirteen year marriage, which she’d thought would last a life time.
He had cheated on her. No, he had betrayed her, that is the word: BETRAYAL.
Three months had already gone since he had taken his last look at her eyes. And then, on that warm summer night her younger sister called her from a public phone booth. “Please Elena, you must forgive me. Please help me. I don’t know what to do.” Elena and Susan had never been anything more than sisters. Never friends or good comforting shoulders one to another.
“What is the matter Susy? Where are you?”
“Please say you forgive-me. I need you to forgive-me. I couldn’t help it.”
“What are you talking about? Where are you?’
“I am in front of his house. Please come pick me up. I can’t move…”
Susy was crying a lot, she seemed out of her mind, and Elena had no idea of what could have happened. “Susy, calm down, she said. Tell me where you are.”
“Here, just in front of Mike’s house. Please, you didn’t tell me you forgive me.”
“Stay there. Don’t go anywhere, don’t talk to him. I am going to pick you up. Just wait a minute.”
Elena was confused. She went out on the street and walked to her brother’s house, not far from hers. She told him Susy was in trouble and they needed to pick her up.
They got on the car and Harry drove to Mike’s house. It was a twenty minute drive, and they didn’t say a word. When they got there, they saw Susy sitting on the pavement. She looked insane. Elena saw a light in Mike’s house, she walked towards it, came by the window and looked inside. There he was, with his new girlfriend, the mother of his six month old son, whom Elena had hidden from her family, trying to protect her children from a greater shame. She knocked on the window, and said to him something she would not remember a second later. She was astonished at the possibility that her thought could be right. The woman tried to say something back, but Elena ignored her, she turned to her sister, put her in the car and Harry drove them back home, in the most horrifying silence.
He left them both in front of Elena’s house and went back to his house. “If you need something, call me, will you? he said “Okay, bye”, she replied.
Susy walked inside the house with her head down. She went straight to Elena’s bed, and lay there, as if the entire world had cracked on her head.
“So”, Elena tried a word. “How long has it been?”
“Twelve years”, was the reply. “He has always told me I was the one he loved. I’ve waited for all these years and now when I thought we would be happy, I find him with this woman.”
Elena, couldn’t say a word. She walked slowly to the living room, looked up the number of Suzy’s psychiatrist and called him.
“Well, you have to be strong”, he said. “I know this is something odd to ask from you, but your sister is a potential suicide, and you are the only one who can back her up. Please be there for her. Comfort her, and make sure she has company all night.”

Three blank pages


There are quite a few things that represent a “monster” in our lives. As a child, I always had some attraction for them. I loved the night monsters, and the ones who lived in the depth of the oceans, and also those who silently came to the kitchen to steal from mom’s cookies’ pots. I loved them all, especially because I knew they would leave as soon as I wanted them to. All I had to do was to call mommy and ask her to make them go. She would then tell me some story of good fairies and nice sweet girls, and the ugly creatures would simply vanish – monsters would never stay anywhere where there were good fairies and nice sweet girls…
Nowadays, I frequently have my three year-old grandson on my lap begging me to tell him a story. “Which one will we have today?” I will always ask. Usually he wants one with wolves, and witches, and – monsters, but as soon as they come in the scene, he will put his little soft hand on my lips and say, “Grandma, I’ve had enough of this, tell the story of Winnie the Pooh.”
One would say that as you grow up, you grow out of fear of monsters, right? Absolutely wrong! It is funny how, as we age, that weird feeling ripens within us. We wish for monsters, we search for them – and once we do find them – we want an easy and fast way out. But the really funny thing is – if that is funny at all – that the older we are, the bigger the “monsters” seem to us.
At the age of 40, I suddenly started believing that I could be a writer. It was all very nice until I decided to start a school for writers. During all my life, on weekends and holidays at my dad’s, the kids in the family would always gather wherever I was, and ask me for stories and jokes and games. My relatives and friends would tell me that I had “a way” with the words, so one day I decided to write a story – publish a book, and turn myself into an “immortal”. Well, after some real hard work, the book was there, but I didn’t seem to be immortal yet, so I gave it a little thought and said to myself – “What you need is a good school for writers”. And I found one.
At the beginning it was all nice and fun, “Read this and do the same”, “Read that and do something similar”… But as the course was developing, there came the day when the biggest of all monsters appeared in the scene – huge, hairy, and hungry, in the shape of a homework. The monster, I mean, the task was to fill three blank pages, with something “from within”, a past experience, something somebody would be interested in reading. What in the world could that be?
For four months, I thought about it. What would I have to say that could interest anyone? Why would anybody read something about me and be interested from the first to the last line?
As time went by, the first monster brought some friends, and then more, and more. By the end of the 122nd day, I found myself sweating during the night, reflective during the day and shivering through day and night. I had to do something; and no teddy bear would give me a hand, as there were no teddy bears in my past experiences – not as something to interest a reader anyway…
But I finally found a solution.
On a rainy day, as my boots were wet and my hands were freezing, there was I, in front of the huge, fierce, frightening, scary Blank Paper. I looked at it deeply, in the center of its heart, and said to myself – in a very low voice, so it would not hear me – “My dear, if you really want to be a writer, you will have to beat this Goliath”. And so I did. I started filling the first page with words, and feelings, and truths. Soon there were three complete pages, filled from top to bottom with words that meant not only to tell a story and occupy a space, but also to beat a monster, and show others that even after-age, one can fight and win battles against inner phantasms, usually brought to us, by our own creation and lack of self-confidence. I beat it this time; hopefully I will beat it again in the future, should it come to me once more.
Anyway, the feeling is gratifying and refreshing – and the best of all - the task has finally come to an end.
Page 3!

Um beijo a Sinhana



Numa dessas noites em que entregamos a Deus alguns momentos que não nos foi possível preencher com tarefas diárias e lucrativas, encontrei-me pela primeira vez num centro espírita onde se desenvolvia um trabalho com pretos velhos.
Sobre a mesa, no meio da sala, havia uma jarra d’água que por alguma razão me prendia a atenção. Aos poucos, senti-me completamente desligada daquela realidade e deixei-me transportar à minha infância; um tempo em que a natureza e eu éramos indistintas.
Minha família tinha um belo sobradinho no Cerrado, não distante do centro de Sorocaba, onde meus irmãos e eu estudávamos. Éramos muitos filhos e cabia aos mais velhos cuidar dos mais novos.
Maria Déa, minha irmã mais velha, era a que me levava ao grupo escolar. Minha mãe nos dava dinheiro para as passagens de ônibus, mas costumávamos ir a pé. O dinheiro era reservado para um picolé, um doce, ou, não raro, para uma fotonovela que compraríamos na Tabacaria da Sé, nos dias em que corajosamente matássemos as aulas. Naquele tempo, não era fácil matar as aulas; a cidade era pequena e as crianças uniformizadas, em horário de aula, não passavam despercebidas pelas ruas do centro. Porém, minha irmã era astuta; com a sabedoria que têm as irmãs mais velhas, ela me conduzia por entre as árvores e bancos da praça da Sé e, com com muita agilidade, num minuto, estaríamos no Zoológico da cidade que ficava então, às margens do rio Sorocaba, sob a ponte Delosso..
Deinha era sempre a primeira a ler a fotonovela; ela era a mais velha, a mais sábia e – a mais forte.
Enquanto aguardava a minha vez, gostava de me deitar à beira do rio. Passivamente deixava-me envolver por aquele ruído quase inaudível que aos poucos fundía-se ao ruído da vida que fluía em minhas veias.
Num desses dias, lembro-me de estar muito cansada, quando me deitei, como de costume, enquanto Déa buscava um lugar à sombra para ler em paz. Acho que adormeci.


De repente ouvi a voz de Sinhana, que me chamava aos gritos: “Venha cá negrinho matreiro. Não vê que o Sinhozinho quer visitar a roça?”
Sinhana sempre me chamava aos gritos. Ela era uma boa mulher; talvez fosse mesmo a minha mãe – não sabíamos bem. No dia em que eu vim a o mundo, veio também um outro moleque; de igual porte e semelhante feição. Fomos, os dois, colocados juntos, para que uma só negra nos amamentasse. Sinhana, por sua vez, teve de dar seu peito ao filho de Sinhozinho que havia nascido alguns dias antes e que não podia ser alimentado pela mãe pálida e franzina.
Alguns anos mais tarde, o moleque que crescera comigo foi vendido para a fazenda do Sr. Aguiar, do outro lado do rio. Sinhana nunca soube ao certo qual de nós era seu filho, mas dava-lhe conforto pensar que podia ser eu.

Aos berros de Sinhana, levantei-me de um só golpe e corri para ajeitar o cavalo predileto de Sinhozinho. Era um baio grande e ligeiro – inveja dos arredores.
Sinhozinho pegou as rédeas do animal e num gesto já conhecido meu, ordenou-me que corresse. Ele sempre me levava consigo as suas cavalgadas na roça; receava ser molestado por algum “negro injusto”, dizia.
Nunca entendi bem o porquê daquele medo; era ele quem tinha o berro preso à sela, era ele quem comandava o feitor e, na pior das hipóteses, era ele quem tinha o baio. De qualquer forma, gostava de levar-me consigo.
Ao seu sinal, então, pus-me a correr em direção à roça. O baio trotava acelerado e, não raro, passava-me a frente.
“Corre moleque”, dizia Sinhozinho. “Corre que não vim aqui para passear.” Isso sempre acontecia assim.
Um dia, porém, decidi que era hora de mostrar àquele homem quase sem beiço que não poderia continuar correndo daquela maneira; minhas pernas eram fortes e ligeiras, mas não poderia continuar correndo à frente do baio, varrendo sempre o caminho por onde eles passariam.
Foi então que resolvi fugir. Já ouvira falar de muitos negros fugidos e sabia que era arriscado; mas resolvi tentar minha sorte.
À noite, depois que todos foram dormir, sentei-me ao lado de Sinhana, ao pé do fogão, comi um pouco de canjica com bolo de fubá que ela fizera, e falei-lhe de meus sonhos de viver livre, de ir ao mar e lançar-me, quem sabe a nado, às terras de África. Tantas histórias eu já ouvira de Àfrica, histórias cantadas pelos negros nas roças, ou nos cantos das senzalas. Sinhana arregalou seus enormes olhos negros e danou a dar-me tapas por toda pele. “Negrinho bobo, você foge, eles te pegam e Sinhana fica sem filho nenhum”.
Senti pena de Sinhana, mas meu sonho de liberdade era maior do que qualquer outro sentimento e, antes do alvorecer, embrenhei-me na mata às margens do rio que havia atrás da casa grande e segui o rumo da correnteza que me levaria ao sol. Eu sabia que o sol nascia no mar e era para o mar que eu queria ir.
Não sei quanto corri. Sentia fome, minhas pernas tremiam e minha vista falhava. Caí ao chão exausto e acho que adormeci.
De repente, num susto, abri os olhos e dei com dois homens enormes sobre mim; um branco e um negro. Eles não fizeram perguntas. Não pareciam ter dúvidas. Aliviaram um pouco da tensão em que viviam sobre mim e, por fim, ataram meus pés a pesadas correntes.
“Corre moleque”, disse o negro.
Meu corpo todo doía, minha pele sangrava e mesmo que não estivesse amarrado, não poderia correr – mas tive de andar. Andei um caminho que parecia não ter fim; um caminho que me distanciava, cada vez mais, do sol...

Sinhana olhava de longe, com os olhos cheios d’água e eu evitava encará-la.
Foram cinquenta chibatadas no couro nu. O número havia sido estipulado pelo filho de Sinhozinho que, apesar dos choramingos de Sinhana, não parecia ter no peito qualquer coisa que se assemelhasse à piedade.
Passei toda a noite atado ao tronco. Pela manhã, fui solto após um discurso de Sinhozinho a todos os negros que pudessem estar pensando em fugir.
Fui, então, levado à senzala e lá pude chorar baixinho toda a dor do físico e da alma...
Os dias seguintes se passaram sem muita anarquia ou novidade. Era sempre assim depois de uma “boa lição”.
Voltei a correr à frente do baio e passei também a trabalhar no corte de lenha para o fogão, no transporte do angu para os negros na roça e no debulhe do milho.
O filho do Sinhozinho dizia que se estivesse trabalhando, não estaria sonhando com bobagens.
Era verdade. Eu não sonhava com bobagens. Tudo com que sonhava era o mar. Mas não ousaria buscá-lo tão cedo. Dera minha palavra a Sinhana.
Certa feita, quando empilhava a lenha que seria cortada, meti minha mão num feixe e deixei-me picar por uma aranha que ali fizera seu ninho. Foi tanta a dor que senti que me pus a correr como um louco.
Sinhana, sem saber o que se passava, implorava para que eu parasse. O feitor ordenou-me que voltasse imediatamente, e eu corria desesperado em direção à água fresca do rio que deveria acalmar a minha dor.
Sinhozinho, atraído pelos gritos, saiu à varanda com seu berro em punho e deu três tiros.
De súbito, senti-me rolar lenta e pesadamente, barranco abaixo. Minha visão estava turva, calafrios e ondas de calor percorriam simultaneamente todo o meu corpo. Deixei-me, então, cair n’água fria e límpida do rio que chamavam de Sorocaba.

Ao longe, Sinhana me chamava aos gritos.
Já não sentia dor quando, passivamente, deixei-me envolver pelo estrondoso ruído das águas que violentamente fundia-se ao silêncio que interrompia o fluir da vida em minhas veias.